O comportamento online de usuários de serviços de prostituição tem repercussões no mundo externo e vice-versa. A conclusão é de um estudo realizado na Suécia e que contou com a participação de um pesquisador brasileiro. A pesquisa usou a chamada teoria das redes complexas para compreender como é a dinâmica da disseminação da informação na internet.
Os dados possibilitaram a construção de uma rede que poderá ser utilizada, por exemplo, para o estudo da propagação de doenças sexualmente transmissíveis.
Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo foi realizado por dois físicos da Universidade de Umeå – Petter Holme e o brasileiro Luis Rocha – e por um sociólogo da Universidade de Estocolmo, Fredrik Liljeros.
Para Rocha, o estudo é provavelmente o primeiro a demonstrar que o feedback na comunicação online tem impactos em eventos da realidade, que, por sua vez, afetam a dinâmica da informação na internet.
“A maior parte dos fenômenos econômicos na internet tem base na disseminação de informação para os consumidores pelo marketing. No entanto, alguns deles, como a prostituição, são organizados por meio de redes sociais envolvendo tanto consumidores como vendedores. Por essa razão, esse tema é do interesse de grupos como o nosso, envolvidos com o estudo da disseminação social da informação”, disse Rocha.
Tipos de atividade sexual
O fórum online analisado traz relatos de usuários a respeito de encontros e comentários sobre os serviços prestados por acompanhantes em 11 cidades brasileiras. Os pesquisadores investigaram os contatos entre 6.624 garotas e 10.106 clientes em um período de seis anos.
“Os encontros foram avaliados e categorizados pelos usuários em termos de tipo de atividade sexual realizada. Utilizamos os dados obtidos de diferentes formas, buscando padrões de comportamento dos usuários. Para suprimir a subjetividade dos dados, modelamos essa comunicação do fórum por meio de redes complexas, que é uma abordagem essencialmente interdisciplinar”, disse Rocha.
Na rede montada pelos pesquisadores, clientes e garotas de programa correspondiam cada um a um vértice. O mapeamento dessa rede complexa gerou dados para uma série de estudos.
“Descobrimos que as informações trocadas ali refletem o comportamento dessas pessoas na realidade e esse comportamento, depois, é refletido novamente no site, completando um ciclo que determina, por exemplo, quantos contatos as acompanhantes têm com os clientes”, indicou.
Comentários estimulam novos encontros
Os comentários positivos ampliam a chance de novos encontros, segundo o estudo. O alto nível de atividade e a experiência também elevam a reputação da acompanhante. “Constatou-se que essa dinâmica de feedback pode gerar um efeito de bola de neve”, explicou.
Como a rede formada – com uma base de dados de grande escala – inclui informações como a localização geográfica e o tipo de atividade sexual realizada pelos indivíduos, ela poderá ser utilizada para estudos relacionados à propagação de doenças sexualmente transmissíveis, segundo Rocha.
“A transmissão de doenças é fortemente influenciada pela maneira como a rede social é construída. Até agora tínhamos poucos estudos feitos em larga escala para comprovar isso, pois é muito difícil conseguir dados relevantes desse tipo. Esse fórum brasileiro on-line, nesse sentido, foi um achado de interesse científico muito grande”, disse.
O sistema de redes sociais montado pelos pesquisadores, segundo Rocha, poderá ter aplicações também para a análise do impacto econômico da prostituição, além de poder ser adaptado para outros tipos de atividades.
O artigo Information dynamics shape the sexual networks of Internet-mediated prostitution, de Luis Rocha, Fredrik Liljeros e Petter Holme, pode ser lido gratuitamente na PNAS.